sexta-feira, maio 03, 2013

Eventos $$$ ou treinos coletivos a custo zero?

 Corredores criam mecanismos de suprir o vazio no calendário de corridas, frente aos altos custos proporcionado pelos eventos  



Escrito há algum tempo, este texto era para ter saído em outro espaço. Mas já que não. Vale a pena compartilhá-lo em meu blog para meus amigos e queridos leitores. Um pouco longo, mas suponho que interessante. Trato de um tema um pouco delicado, mas que tento explanar sem muita polêmica.. Como alguns já conhecem,  minha opinião frente a correr de pipoca em uma prova é negativa. 

Sabem que não sou a favor!! Não do corredor que dá a desculpa de que esta usando a rua, mas que faz usufruto dos pertences da organizadora. 

Oras, usar a rua tudo bem e olhe lá - por que ainda assim aquele espaço naquele momento foi pago e esta a disposição da organizadora. E sim acho muito feio quem além de usar a rua, quer usufrui de tudo. Aí de fato não concordo. Quer usar a rua?? Tranquilo e tenho vários amigos que usam. Mas usufruir às custas de outros corredores ai já é demais... Eu sei que não é demais gente, tudo bem... Mas pense se todos começam a fazer isso? Sei que eles lucram e muito!! Mas vamos ao nosso texto?? Afinal não é minha opinião que quero deixar implícita aqui e sim dos que de fato participaram na criação deste texto.

          Como já comentado para quem corre há muito tempo, não tem sido fácil manter este vício delicioso, que é treinar e ao fim participar dos eventos no esperado domingão. O “boom” das corridas afetou diretamente o bolso dos atletas, que já não se permitem correr todo fim de semana. Tendo acompanhado muitos corredores o que se percebe é uma espécie de  afastamento, a princípio, por parte dos veteranos das provas, anteriormente tão rotineiras. Interrogados do por que não participar mais, a resposta é sempre a mesma: os valores das corridas ficaram insustentáveis aos nossos bolsos. Se para quem corre há três anos já é possível  perceber esta inflação abusiva, imagine para quem corre há décadas?

           Fábio Namiuti
Fábio Namiuti corre em eventos desde 2006 e indignado como os valores aplicados por organizadoras ressalta que sua primeira corrida chegou  a ser gratuita e o “kit do atleta não era desmerecido não. Vinha  até mesmo com brindes”. Entristecido o corredor nos conta que parece que brasileiro gosta de pagar mais caro em tudo (deve achar, sei lá, que dá status?). “E tem o péssimo costume de não colocar quase nada na ponta do lápis. Venho tentando alertar os companheiros de esporte quanto aos aumentos percentuais abusivos nos preços de 2013 em relação aos de 2012 (há corridas que subiram mais de 45%, de R$ 55 para R$ 80; ou até 50%, de R$ 60 para R$ 120, por exemplo), mas o que mais escuto como resposta é “ih, é assim mesmo, olha que essas até que ainda estão baratas”. Parece que o valor de R$ 120 na inscrição da prova mais famosa do Brasil, além de puxar para cima o preço das outras, anestesiou a comunidade pedestrianista. Se fosse apenas uma natural e inevitável segmentação, dividindo o esporte em corridas “para ricos” e corridas “para pobres”, eu iria lamentar, mas até compreenderia, afinal, quase tudo na vida segue por esse caminho”. Mas mesmo as corridas mais simples e menos organizadas estão sendo engolidas pelas grandes organizações, repercutindo também em altos preços. Mais que o valor em si, a relação custo x benefício vem ficando cada vez mais proibitiva.
  
            O que fazer para não perder o gosto de correr, mesmo “sem eventos”

            Em primeiro é não deixar de correr. Parou perde-se o hábito. E foi nesta perspectiva que não só Namiuti, residente no interior de São Paulo, como diversos outros corredores, assim como assessorias encontraram nos treinos “especiais” uma maneira de incentivar os amigos que não mais participavam dos eventos. 
            Diferente, o mesmo decidiu aproveitar o momento, em que se prepara para fazer sua primeira ultramaratona para reduzir o número de participações nas provas. Sendo assim também poupando! Em 2012, Namiuti chegou a participar de 48 corridas. Desta forma a decisão para 2013 frente aos preços abusivos, foi tentar reduzir para uma prova por mês. 

“Parar de correr? Nem pensar! Ele diz que vai treinar, e treinar bastante. Nem sempre sozinho. O mesmo faz parte da equipe 100 Juízo e de um grupo de amigos corredores que topa qualquer parada. Por isso há algum tempo, eles  aproveitam os finais de semana, sem corridas agendadas para treinar coletivamente, assim como algumas assessorias também o fazem. 

E a turma do Namiuti não é pequena

         Para o mesmo, cada vez mais estes treinos tem se tornado tradição e tem suprido as lacunas do calendário que as provas tem deixado. É uma boa maneira de reunir  mais amigos e se dá  a oportunidade de conhecer lugares diferentes,  enfrentar belos desafios e  “sem boleto bancário”, faz questão de ressaltar. “Já percorremos, em dois anos seguidos, os 37 km que ligam as cidades de Taubaté a Aparecida pela Via Dutra. A “peregrinação” vai para o terceiro ano consecutivo e deve acontecer no mês de julho próximo. Não é uma maratona da fé, mas chega bem perto disso. Já corremos de madrugada, fazendo um treinão que começou à meia-noite da véspera de um feriado e seguiu noite adentro. “Simulados” nos percursos de corridas, atuais e do passado, reunindo tanta gente quanto no próprio evento; e aproveitando para arrecadar alimentos ou brinquedos para doação a entidades beneficentes. Já pegamos o dinheiro que economizamos das inscrições e fizemos piqueniques, churrascos, feijoadas completas, verdadeiras confraternizações. A cada semana inventamos um percurso novo, criatividade é o que não falta e lugares bacanas para conhecer, também. A diversão é a mesma, se não até maior. Quem precisa esvaziar os bolsos para praticar o seu esporte?

Egídio Filho corredor residente na cidade do Rio de Janeiro relembra da sua época de  mocidade, em que correr era sinônimo de liberdade. Bastava colocar o único tênis no pé e sair por aí. A descoberta pela corrida foi sozinho, no entanto depois que começou a correr em um grupo, por um convite de um colega de trabalho gostou tanto que em seis meses já estava completando a sua primeira maratona, com tempo de 3h40min. 
Lembro como hoje, naquela época ainda publicavam no antigo Jornal dos Sports. De lá para cá muita coisa mudou e hoje o que mais me entristece é o rumo que o panorama das corridas de rua têm tomado. “Na minha época correr era esporte de pobre ou de pessoas muito bem esclarecidas que tinham como referência o “Dr. Cooper”. Lembram?... Fazer um Cooper? Hoje a situação é outra. Lógico não menosprezando a tecnologia, temos tênis, relógios, meias, shorts, blusas e outros apetrechos que se você não tiver  você vira um corredor alienígena. Mas em paralelo a isso tudo veio a fábrica de corridas,  grandes organizadoras, a ganância financeira em favor dos eventos, o desrespeito aos corredores amadores que fazem o esporte por amor e conquista particular. Cobra-se muito e doa-se pouco este é o rumo que estamos caminhando. A logística das corridas tem sido sempre as mesmas, só mudam os preços cada vez mais altos. Eventos que muitas vezes deixam a desejar.  Hoje o que eu faço é treinar com amigos. Como moro no Rio de Janeiro, combinamos e fazemos belíssimos treinos na Barra da Tijuca, Floresta da Tijuca, Recreio/Grumari, Paineiras. Levamos nosso próprio lanche e isotônicos. Assim voltamos a correr pelo prazer de correr. É mais saudável, é mais gostoso, um incentivando ao outro e no final a medalha é um sorriso e o viva da nossa amizade. Hoje eu troco uma bela corrida com os amigos, a ter de pagar caro por algo que não irá me dá prazer,  frente ao custo x retribuição.
            
Antônio Colucci na mesma linha, fala que em São Paulo os treinos deram tanto sucesso que houve uma crescente adesão de amigos corredores (internautas) e até mesmo de equipes, que costumam sempre pedir novos treinos. 

Começamos a nos reunir via redes sociais e assim fomos criando treinos, em lugares diferentes do tradicional uso do Ibirapuera. “Com a equipe Good Running costumamos treinar em Aldeia da Serra, um percurso com certa dificuldade, subidas em terra e asfalto. Alguns treinos passaram a ter ingredientes a mais. 
Por exemplo com a equipe Corre Brasil ao fim dos treinos temos um café/lanche temático. E com um custo irrisório. Quem quer participar só do treino é mais que bem-vindo, quem quer participar do café temático contribui apenas com R$5,00, para ajudar nas despesas. Os temas são criados pela Walquiria, corredora e nutricionista e pelo professor Augusto.

Já aconteceram treinos e até provas comemorativas com gincana nos parques Ecológico do Tietê, no Parque do Pico do Jaraguá e o próximo está previsto para o parque do Horto Florestal. Quem não conhece São Paulo, um é no extremo leste, outro no extremo Oeste e o outro no extremo Norte. Acaba sendo uma ótima opção para conhecer novos lugares. É possível levar a família, correr, encontrar os amigos, curtir uma bela manhã de domingo e gastar muito pouco. Atualmente com a grande opção de provas e os altos preços cobrados fica difícil que todos os amigos participem da mesma corrida, assim os treinos marcados com antecedência e divulgados na rede passam a ser mais importantes que as provas, além de ser uma opção mais econômica e divertida. 


Muitos amigos virtuais passam a ser amigos reais nesses encontros. Esses treinos servem também para melhorar "fundamentos" da corrida, pois esses locais tem boas subidas que servem de cobaias para as provas mais difíceis. Todos esses treinos contam com a presença de professores, educadores físicos e também com apoios no percurso com hidratação e o que for preciso. E temos também os polêmicos treinos pela avenida Paulista e região do centro, que é uma super confraternização onde todos correm, se divertem, conhecem melhor São Paulo, mas que infelizmente foi confundido por um organizador de corridas e não pode ser nomeado. “Resumindo, correr é para deixar as pessoas felizes, realizadas, aptas para encarar o dia a dia com mais saúde e disposição. Se for possível fazer isso com amigos e gastando pouco, melhor ainda. Se os altos valores das corridas fossem justificados com uma ótima prestação de serviços ninguém teria nada a reclamar, mas infelizmente não é essa a realidade que vivemos. Para cada corredor que se sente mal tratado e decide não mais participar de determinada corrida, três novos aparecem e ficam na fila de espera”.

A tendência, seja do carioca, paulista, brasileiro corredor têm sido pesar as duas medidas e ponderar a quantidade de participações em eventos no ano. Eles estão cada vez mais seletivos em suas  participações e embora frequentando bem menos estas provas, continuam correndo e muito!! 

4 comentários:

ENIO YUHARA disse...

Oi Dart!!!
Como já participei de várias corridas aqui em SP, não vejo mais graça em corrê-las. Principalmente pelo valor cobrado e, também, pela falta de respeito ao corredor por parte de algumas organizadoras.
Parece mentira, mas com o dinheiro de uma inscrição eu vou treinar lá no litoral (faz parte do meu kit: transporte, pastéis, caldo de cana, iscas de peixes, cervejas e refrigerantes).
Camiseta "tecido tecnológico" cheio de propaganda por esse valor? Tô fora!!! Compro num saldão de lojas de material esportivo, sai mais barato e não viro outdoor.
Ultimamente, só participo de corridas fora da capital. No geral gasto mais, mas saio da mesmice dos percursos das corridas.
Até a Praia do Forte!!!
Enio - BALEIAS/SP

Claudio Vieira disse...

Ja fazem dois anos que assumi a seguinte postura: pago somente as principais que quero muito fazer, como: maratonas, meias e ultras! As outras só vou se ganhar em promoçoes, parcerias ou convites! Ano passado participei 21 corridas e fui de graça em 13, sem contar inumeras outras que fui de pipoca acompanhar os amigos e levei meu material... e o melhor foram os treinos com os amigos...

Fábio Namiuti disse...

Obrigado pela oportunidade de falar sobre o assunto, Dart. Não desgostei das corridas e muito menos do ambiente delas. Mas não me sinto obrigado a fazer nenhuma "inscrição automática", ao preço que for. Posso muito bem fazer um treino com os amigos, como mencionei no depoimento. Ou mesmo só aparecer na prova para rever os amigos, bater umas fotos, colocar o papo em dia... Vou me inscrever nas provas que puder ou quiser pagar e continuar curtindo meu esporte, sem nenhum grau de "medalha-camiseta-kit-dependência".

Runner Hostil disse...

Oi, Dart! Bela análise sim. É bom quando temos a nossa opinião e sabemos defendê-la como você faz. A saída encontrada por essa galera é bem legal sim e creio que será a que muita gente vai achar também... Passado do deslumbramento por algumas provas "must-do" a gente passa a ser mais seletivo. Tenho passado por isso. Farei muitas provas e gastando o mesmo que ano passado que fiz apenas 9. Vamos dar na cara desses empresários e deixar o corredor modista pagar o que eles pedem, não tem jeito para conscientizar o cara que tem grana e nem sente que tá sendo "roubado" pelas butiques... Afinal, gastar mais dá status mesmo. :C