sábado, dezembro 01, 2012

De bike para o trabalho!!! É POSSÍVEL em Salvador




Para quem acompanha este blog há algum tempo, já deve ter percebido que após a aquisição da bike tenho participado e me interessado bastante sobre temas referentes ao ciclismo. Não é para menos que estou tentando deixar alguns domingos vagos para pedalar. Quando não, durante a semana é muito difícil pedalar em Salvador sozinha, principalmente pela falta de ciclovias. Infelizmente nossa cidade, embora atraia muitos turistas, no quesito esporte deixa muito a desejar. Também por este motivo que admiro muito aqueles que circulam “sozinho” por Salvador de bicicleta e fazem deste seu meio de transporte utilizando não só para o lazer como para ir ao trabalho.

Há algum tempo conheci o Jomar Souza (via facebook) e acompanhando suas conversas pela rede social descobri que o mesmo, apesar de ocupar uma profissão tradicional e almejada por muitos (a medicina), não se sente intimidado pela sociedade por ter trocado o carro pela bicicleta.

Isso mesmo! Jomar Souza de 42 anos, médico especialista em medicina do exercício e do esporte trocou o luxo de um carro, com ar condicionado, pela bike e se tornou um ciclista urbano. Olha que quem mora em Salvador sabe bem da dificuldade que estou falando em pedalar por onde não tem ciclovia. Mas ele apesar de nem sempre pegar estes trechos explica melhor os motivos desta troca....

Jomar Souza - médico e ciclista urbano

“Vinha há algum tempo cansado dos engarrafamentos em Salvador. O desgaste físico e mental além do tempo perdido me fizeram pensar em alguma alternativa. Muitas vezes acabava os atendimentos no consultório e ficava mais uma hora, pelo menos, esperando diminuir um pouco o fluxo de veículos. Me perguntava o por quê daquele absurdo, de muitas vezes levar 40 minutos para percorrer cerca de 3Km, distância da clínica para minha casa.

Então, em dezembro de 2011 meu filho ganhou uma bicicleta de um amigo dele. Já não lhe servia mais, pois o garoto havia ficado muito alto para o tamanho da bike. Peguei a bicicleta e junto com meu filho a levamos numa oficina perto de casa. Ficou linda e pensei que precisava acompanhar ele nos passeios. Foi assim que entrei numa loja de artigos esportivos e comprei minha bicicleta. Não procurava nada caro nem com tecnologia de ponta. Precisava apenas de uma bike robusta e que tivesse marchas pois já surgia em minha mente a ideia de me locomover por Salvador sobre duas rodas.

Comprada a bicicleta veio aquele medo natural. “E agora, boto a bike na rua ou não?”. Passei então a procurar sites sobre o assunto na internet. Encontrei vários com dicas importantes e vídeos mostrando como se comportar pedalando no trânsito. Num sábado pela manhã resolvi fazer o trajeto casa – consultório – casa. Tremia mais que vara verde cada vez que um carro ou ônibus passava ao meu lado. Vários anos sem andar de bicicleta também ajudaram a aumentar esta insegurança inicial. Um amigo, que além de mergulhador também pedala, me passou informações valiosas, como procurar vias alternativas para trafegar o mínimo possível pelas grandes avenidas. E assim fui, pedalando e me tornando mais confiante, prestando muita atenção para não me tornar super-confiante que é a receita certa para o desastre. É quando nos sentimos inatingíveis e indestrutíveis que deixamos de tomar os cuidados básicos.  

Inicialmente minha esposa e filho não acreditaram quando me viram sair de bike num dia útil para ir ao consultório. Roupa de trabalho na mochila, “paramentado” de ciclista, cheguei à clínica e os olhares incrédulos foram inevitáveis! De repente veio aquela sensação de “dar o exemplo”! Choveram perguntas. “O senhor veio de bicicleta?”, “Não é perigoso?”, “Mas pra voltar à noite pra casa, como faz?”. Foi uma enxurrada de questionamentos e opiniões; expressões de admiração e medo; advertências; etc. Nesse meio tempo recebi a desaprovação do meu pai. Sim, aquele homem 30 anos mais experiente que eu, cativado pela “cultura do automóvel” mas antes de tudo um pai zeloso e preocupado com a integridade física do filho ao se aventurar pelo trânsito caótico de Salvador. Tive a impressão de que muitas pessoas pensaram que logo eu desistiria. Talvez pelo meu temperamento conservador, pouco afeito a mudanças. Talvez pelo meu porte físico, muito franzino desde a adolescência. Talvez até pela minha idade e meus cabelos brancos, não sei. Mas insisti e a família e os amigos viram que eu não me entregaria facilmente. Já tinha ouvido muitas vozes incrédulas quando fiz outras coisas que consideravam “impossíveis” para eu realizar como quando me tornei um divemaster ou guia de mergulho tendo de me submeter a um treinamento específico e testes de aptidão física além de simular o resgate na água de mergulhadores muito maiores que eu para receber minha credencial.

Pedalar por Salvador é fácil? Definitivamente não. Ruas esburacadas e mal iluminadas além de motoristas não acostumados a dividir “sua pista” com outros veículos, principalmente os mais lentos. Mas o que tenho observado é que, ao perceber o ciclista cumprindo as regras de trânsito, se tornando visível, sinalizando suas intenções e ocupando uma parte da faixa de rolamento ao invés de circular colado ao meio-fio, os motoristas no geral tomam cuidado conosco.

A bicicleta me deu a liberdade de controlar meu horário, de saber com uma precisão quase britânica quanto tempo eu levo para me deslocar do ponto A ao ponto B. De não depender dos “humores” do trânsito. De testemunhar reações engraçadas como a de uma recepcionista no Centro de Convenções da Bahia quando cheguei de bicicleta para fazer uma palestra num congresso e ela me perguntou “o senhor é palestrante?” e logo depois me viu sair do banheiro de terno e gravata com o capacete na mão! E além disso tudo, de ter a sensação de efetivamente estar fazendo algo para reduzir o engarrafamento e a poluição na nossa cidade. Hoje em dia me sinto um motorista melhor. Presto mais atenção aos veículos menores que o meu e nos pedestres. Mantenho uma distância segura do meio-fio para permitir a passagem de ciclistas mesmo quando eu esteja parado num engarrafamento no único dia da semana em que uso carro porque minha esposa não permitiu que eu circulasse pela Av. Paralela de bike. Gostaria muito de ver uma ciclovia naquele canteiro central, desde a Av. Tancredo Neves até o aeroporto.

Tenho certeza de que não estou sozinho. Cada vez mais pessoas estão se transportando de bike, não por falta de opção, mas por convicção. Convicção de que é possível deixar o carro em casa. De que precisamos de uma cidade mais saudável. De que as ruas devem ser compartilhadas. De que existem pessoas de bem atrás dos volantes e que respeitam os ciclistas. De que muitos de nós ciclistas urbanos precisamos respeitar as regras de trânsito ao invés de só exigir respeito. Utópico imaginar que a maioria dos motoristas deixarão seus carros nas garagens para circular de bike. Não tenho este pretensão. Procuro apenas mostrar que é possível.

Não sou nenhum ativista de movimentos ecológicos ou do uso da bicicleta. Sou médico. Sou pai de família. Sou motorista. Sou ciclista urbano”.

6 comentários:

Mariana S. Freitas disse...

Execelente exemplo! Moro em Vitória da Conquista, no sudoeste baiano, e aqui temos ciclovias que cortam toda a cidade, à exceção de ruas mais antigas, que são mais estreitas e são justamente as do centro da cidade. Adoro bike. Vou pedalando para o trabalho sempre no sábado, mas ainda nao tive coragem de ir durante a semana e é apenas uma questão de adaptação da rotina. Exemplos como estes são cada vez mais enriquecedores. Parabéns!

JOSÉ AMÂNCIO NETO - CORREDOR DA 3ª IDADE disse...

Maravilha Dart! Que belo exemplo. Mais uma prova de quando a gente quer nada eh impossivel. Parabens pelo excelente texto.. Abr

O Corretor Corredor disse...

YES !!!
Seu Blog é SHOW !!!
E estou adicionando ele na minha lista de Blogs favoritos de corrida no meu Blog.

Um beijo do seu amigo
O Corretor Corredor
Visite:
www.ocorretorcorredor.blogspot.com

O Corretor Corredor disse...

YES !!!
Este Blog é SHOW !!!
Acabei de adiciona-lo na minha lista de Blogs de corrida favoritos no meu Blog.

Um beijo do seu amigo
O Corretor Corredor
Visite:
www.ocorretorcorredor.blogspot.com

elis disse...

Dart, que bacana o depoimento de seu colega ciclista!

dá vontade de comprar uma bike sair pedalando!
gostei demais das dicas que ele deu!

e você, parabéns!
dá gosto de ver seu ânimo com a bike!
vai servir de inspiração pra muita gente!

bjs
ah, já separei bandeira pra Sheylinha levar, viu;)

Berilo Junior disse...

Belissimo Dart, Salvador precisa disso Urgente!!