sexta-feira, junho 29, 2007

Confesso que esse não foi um dos melhores artigos que já fiz, mas enfim tenho que publicá-lo


Rádio Educadora FM: uma rádio voltada para elite





Resumo

O presente artigo tem por objetivo tecer considerações sobre a Rádio Educadora FM de Salvador, refletindo sua programação, desde seu surgimento, na tentativa de compreender o por que muitos autores e os próprios ouvintes sempre a considerou como uma Rádio de Elite.



Palavras chave: Rádio Educadora FM, programação de elite, educação



Introdução


A emissora de rádio, a que faço menção nesse artigo, refere-se a Educadora FM. Tal emissora, é integrada ao Instituto de Radiodifusão Educativa da Bahia – IRDEB, desde o seu surgimento, e era vinculada à Secretaria de Educação do Estado da Bahia. Hoje esta sob a responsabilidade da Secretaria de Cultura e Turismo. A escolha dessa emissora se deve ao fato da contribuição que esta dá a sociedade. Caracterizada pela diferença na programação, sempre com músicas de “qualidade”, para alguns, no início surgiu com o intuito de promover educação a distância, algo que era comum nas rádios da época, e aos poucos foi sofrendo alterações na programação, assim como o próprio conceito de educação foi mudando. Como todo meio de comunicação, sofre críticas, em determinados momentos sempre foi alvo de reclamações, devido ter uma programação voltada apenas a um tipo de público.
No primeiro momento, procura-se fazer uma síntese sobre a história da Rádio Educadora, baseada em Leite Filho (2003). O texto tem seqüencia com a descrição de como era organizada a programação da emissora.


Um pouco da História da Educadora FM


A Rádio Educadora foi ao ar pela primeira vez no dia 31 de março de 1978, outorgada pela portaria 617, de 7 de julho de 1977, que foi publicada no Diário Oficial da União, um ano depois. Inaugurada com muitos improvisos e poucos recursos, a Educadora foi se desenvolvendo aos poucos. “Foi um grande corre-corre, lembra Aristocléa, diretora do Irdeb na época” ( LEITE FILHO, 2003). O grupo, além de não ter recursos financeiros para instalar a rádio, tinha um prazo dado pelo Ministério das Comunicações para o fazê-lo, o que em breve expiraria. Os ajustes continuaram até mesmo na hora da inauguração oficial da rádio, pois o alcance do transmissor, de 50 watts, emprestado pela Rádio Cruzeiro, em que a rádio estava funcionando, era insuficiente e foi necessário conseguir outro. O empréstimo foi feito pela Rádio Sociedade, que ofereceu-lhes o RCA, de 250 watts. Não houve tempo para ajustar tal equipamento e o cardeal Brandão Vilela, convidado para a inauguração, acabou por dar as bênçãos ao que já estava lá.
A inauguração da Rádio foi comemorada com muita alegria, e apesar do país estar passando por um momento ruim – aniversário do golpe militar, tentou-se esquecer aquela fase e apenas curtir a concretização de um sonho, sonho dos que estavam envolvidos, a tanto tempo, com o projeto. A escolha da data de inauguração, 31 de março de 1978, era uma homenagem a Revolução de 64, algo que também se fez importante para a viabilização do projeto de implantação da rádio. No momento do discurso, o governador Roberto Santos aproveitou para saudar o regime que havia sido implantado em 1964.
A época de inauguração da rádio foi um momento difícil, pois o regime militar ainda estava forte e a censura presente. O Ato Institucional nº5 ainda vigorava, com contagem regressiva para dezembro daquele mesmo ano.
No principio, ouvir Educadora era privilégio apenas dos moradores da Federação, Graça e vizinhança, pois a emissora estava localizada naquela região. Com o tempo, foi aumentando a audiência e também as cobranças, que exigiam da emissora investimentos para melhorar a qualidade do som e da transmissão. Como sabemos, para se ter uma boa qualidade de transmissão, são necessários equipamentos suficientes, coisa que faltava na Educadora, pois não tinham equipamentos de reserva, o que se tornava uma dor de cabeça quando dava problema em algum equipamento.
Daí vieram os investimentos, o transmissor RCA, 250 watts, que fez figuração durante a inauguração, cedido pela Rádio Sociedade, começa a funcionar, e o de 50 watts vai para a reserva. As condições do Irdeb sempre foram precárias e somente em 1979 é que o Irdeb comprou seu primeiro transmissor, um Harris de cinco quilowatts. Assim, os outros transmissores, emprestados, acabaram sendo devolvidos, e a Educadora ficou sem reserva. Novamente é importante salientar que, com poucos equipamento a transmissão ficava comprometida, caso desse problema em algum transmissor.
Nesse momento, o rádio dá um salto na qualidade dos equipamentos, sejam comprados ou ganhados, porém o problema de antes ainda prevalece. Quando dava problema em um transmissor, não tinha outro para substituir e assim a Educadora ficava fora do ar por algumas horas. Dentre essas saídas do ar, a Educadora já chegou a ficar 24 horas fora.
O sufoco só acabou em 1984 quando o diretor Sérgio Mattos comprou o trasmissor SNE, de um quilowatt. A programação já se estendia até a meia-noite, antes era até 20h, e já não tinha mais problemas com a transmissão. Cada vez que chegavam novos equipamentos para a emissora era sinal que seu alcance seria maior.
A Educadora foi tentando acompanhar as mudanças do mercado fonográfico todo esse tempo, que já são 29 anos, para deixar seus ouvintes satisfeitos.



Programação



A preocupação da Educadora esteve, desde a transmissão, aos programas, e em momento algum a rádio cedeu às pressões do mercado. O mais importante era produzir trabalho de qualidade e não concorrer com outras emissoras comerciais. Não era e não é intenção do Irdeb concorrer com outras emissoras, e isto tem relação também com o canal de televisão Educativo mantido pelo Irdeb. É importante perceber que essa era uma posição da instituição que mantinha o canal, já que desde o surgimento da radiodifusão no Brasil, a Constituição da República Federativa do Brasil de 1988, Capítulo V, Referente a Comunicação Social, no Art. 221, determinava que a programação deveria ter fins educativos, científicos, artísticos, e de benefício público, ou seja uma programação de qualidade.


Art. 221. A produção e a programação das emissoras de rádio e televisão atenderão aos seguintes princípios:

I- preferência a finalidades educativas, artísticas, culturais, e informativas;
II- promoção da cultura nacional e regional, e estímulo à produção independente que objetive sua divulgação;
III- regionalização da produção cultural, artística e jornalística, conforme percentuais estabelecidos em lei;


Além disso, a legislação previa que as rádios não poderiam propagar notícias de cunho político sem a prévia permissão do governo.
A Educadora sempre teve uma grande preocupação com o conteúdo que ia ao ar e com a qualidade musical. Naquela época, era uma rádio apenas musical, mas com o tempo, Cid Teixeira deu a idéia de se criar uma programação de cultura e programas de divulgação comunitária. Entre os programas de cultura se destacaram o Bahia, Ontem e Hoje, que trazia informações turísticas; Merece Ser Ouvido, com música erudita, popular e folclórica; e Um Pouco de Tudo, de caráter cultural. Já os programas de divulgação comunitários se referiam a programas de utilidade pública, com informações gerais, desde conteúdos de saúde, primeiros socorros, a informações profissionais. E mais adiante foram surgindo outros tipos de programas, ou seja, a Educadora passou por várias fases.
A emissora acabava por ter um público seleto, devido a tocar músicas de qualidade. Executavam músicas eruditas, MPB, e davam valor ao músico local. Ou seja, você podia estar ouvindo a Educadora e se deparar com músicas dos diversos estilos, a música de Luiz Gonzaga, como também a do “Zé do Pau” em Jacobina, tanto que às vezes as pessoas diziam ter só tal tipo de música na Educadora, o que gerava um certo preconceito. No início a Educadora só tocava músicas brasileiras, somente depois de algum tempo veiculou músicas estrangeiras. Hoje ainda percebemos que a música popular brasileira prevalece, porém,

desde 2003, a programação vem passando por um processo de modernização, com o lançamento de programas dedicados a gêneros como jazz, rock, blues, reggae, salsa e black music, entre outros. A emissora promove também um festival de música anual voltado para músicos da Bahia ( IRDEB, 2007).


Mas para nós educadores, será que a emissora distanciava ou ainda distancia alguns ouvintes, devido a só tocar determinados estilos? E a função Educativa? Quando falamos na questão do distanciamento do ouvinte, é justamente devido ao fato da diversidade de gostos, nem todos gostam de ouvir MPB, ou músicas que estão contidas na programação da Educadora. É perceptivo que em determinados comentários da época ficava claro o (des)interesse pela emissora; “isso só tem na educadora”, alguns amigos meus sempre faziam esse comentário quando ouviam alguma música esdrúxula ou antiga, “isso é coisa da educadora.” Ela vinha com o intuito educativo, mas não contemplava a diversidade, o que é bom para mim nem sempre é bom para o outro.

Ainda hoje, alguns estudiosos teimam em afirmar que música clássica é educativa, mas rock (nacional ou estrangeiro) não, como se apenas um estilo tenha potencial educativo. Isso porque o conceito de bom ( e mau gosto) ainda é analisado desde o ponto de vista das elites e não desde o ponto de vista das classes populares. (BARBOSA FILHO, André e CASTRO, Cosette, 2005).


E há algum tempo a Educadora já não vinha transmitindo os programas do Curso Supletivo, e estava se perdendo
Ou seja, a comunicação no rádio vinha com o intuito completamente adverso ao seu significado

a comunicação entendida no sentido latino da palavra representa, para além do comunicativo, comunhão, comunidade; significa compartilhar informações e saberes sem restrições de raça, cor, religião, gênero, origem, idade, nível educacional ou econômico. Significa também olhar e escutar o outro , seja o desconhecido que se encontra na rua, o que olha através da televisão ou escuta o rádio, colaborando para que ele desenvolva-se como sujeito (BARBOSA FILHO, André e CASTRO, Cosette, 2005).

O rádio é um mundo repleto de sons e palavras que dão asas à imaginação daqueles que não sabem ler, por isso se faz muito importante o seu uso na educação. Mas a sua função deveria ir muito além da programação, da audiência, que hoje e sempre foram essenciais, deveria exercer também a função social de priorizar seus ouvintes, respeitando suas culturas, e não impondo determinados estilos. Coisa que acontecia com a Educadora, há um tempo atrás e que muitos ainda reclamam de não terem uma programação satisfatória a todos os gostos.
A Educadora FM deveria contemplar a todos, já que se diz ser uma rádio educadora, porém é perceptivo na fala de alguns autores que não acontecia dessa forma a escolha da programação da rádio, e que em alguns momentos havia conflitos, como ainda deve acontecer atualmente.
Leite Filho (2003) nos mostra que, em 1989, o coordenador de programação, Luís Claúdio, enfrentou alguns problemas com a questão da escolha da programação. O atual diretor do Irdeb -, Walter Tanure, queria impor uma programação pessoal, com música orquestrada, pois queria acompanhar da sua casa as músicas preferidas, sendo tocadas na rádio. Para tanto fez que demitiu Luís Claúdio, o que resultou numa queda da audiência, levando a Educadora ao último lugar.
Cada vez que mudava de direção, com a troca de governo, novas idéias surgiam e alterações eram feitas na programação, não dando seguimento ao que já estava indo ao ar, resultado que poderia ter boas ou más consequências, fazendo a audiência cair ou subir.
O verdadeiro questionamento era que a programação da emissora era elitizada. A Rádio Educadora rapidamente ocupou o lugar da Jornal do Brasil, que foi uma das rádios FM- que, na época, tinha uma programação light, reunindo os clássicos da bossa-nova, música erudita, jazz e gêneros semelhantes. Sua programação atingia um público pequeno, mas bastante selecionado, da classe A e B. E ao longo de toda a história da Educadora sempre foi esse o caminho. Hoje, acessando o site da emissora, que precisou também se adequar às novas tecnologias e já possui disponível também uma rádio web, percebemos que sua programação naõ mudou muito, mas que a mesma tentou continuar dando a oportunidade aos músicos baianos com a criação do festival de música, e se modernizar adicionando novos estilos musicais na programação, mas que continua sendo uma Rádio para a elite.



Considerações Finais



O estudo da história da Rádio Educadora só vem confirmar que sua programação sempre foi elitizada. Marcada desde os anos iniciais por uma audiência de ouvintes da classe A e B, que gostavam de ouvir músicas eruditas. Surgiu como uma rádio educadora, porém tinha uma programação que não contemplava a diversidade, algo que se faz primordial no contexto pedagógico.




Referências:



BARBOSA FILHO, André , CASTRO, Cosette, O rádio de Mario Kaplun é o rádio do futuro - a aplicação da práxis de Kaplun como ferramenta para a inclusão digital. In: Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, 28., 2005. Rio de Janeiro. Anais... São Paulo: Intercom, 2005. Disponível em: <> .


LEITE FILHO, João S. , Instituto de Radiodifusão Educativa da Bahia, Educadora 25 anos da FM 107,5 / IRDEB. Salvador, IRDEB, 2003.


PEREIRA, Célia Maria Corrêa, BARCELOS, Maria da Conceição Viana, RIBEIRO, Otacílio José CRUZ, Dulce Márcia Cruz. Educação em ondas: o rádio como instrumento e como possibilidade. XXIV Congresso Brasileiro da Comunicação – Campo Grande /MS – setembro 2001.

site do irdeb
http://www.irdeb.ba.gov.br/estrutura.html

site da rádio educadora
http://www.educadora.ba.gov.br/

Um comentário:

Bonilla disse...

oi Dart,
ficou bem melhor agora. Mas lembre-se que nas referências bibliográficas não basta colocar o site, é necessário a referência completa, de acordo com as normas da ABNT.
Boas férias!!!!